A cevada é muito mais do que o grão da sua cerveja favorita — ela é um cereal versátil, nutritivo e com enorme potencial econômico para produtores rurais brasileiros. Como cultura de inverno, a cevada se encaixa perfeitamente em sistemas de rotação, protege o solo e oferece rentabilidade competitiva.
Neste guia completo, você vai descobrir como cultivar cevada do plantio à colheita, entender o mercado promissor desse cereal e aprender a transformar essa cultura em uma fonte estável de renda na sua propriedade.
🌾 O Que É Cevada?
A cevada (Hordeum vulgare) é um cereal de inverno cultivado há mais de 10 mil anos, sendo uma das primeiras plantas domesticadas pela humanidade. No Brasil, seu cultivo ganhou força a partir da década de 1970, impulsionado pela indústria cervejeira.
Características Botânicas
Família: Poaceae (gramíneas)
Ciclo: 90-120 dias (dependendo da variedade)
Altura: 60-100 cm
Sistema radicular: Profundo (até 2 metros)
Espiga: Em forma de bainha, com 20-60 grãos
Tipos de Cevada
Cevada de 2 Fileiras (Cervejeira)
Grãos mais uniformes e maiores
Menor teor de proteína (9-12%)
Ideal para malteação
Maior valor comercial
Cevada de 6 Fileiras
Maior produção por espiga
Teor de proteína mais alto (12-15%)
Usada principalmente para ração animal
Pode ser destinada para malte em casos específicos
💰 Por Que Cultivar Cevada?
Vantagens Econômicas
Mercado garantido: Contratos de compra antecipada com maltarias e cooperativas
Rentabilidade superior: Receita bruta 10-30% maior que o trigo nas últimas safras
Preço competitivo: R$ 600-850/tonelada para classe 1 (grãos premium)
Cultura de inverno: Aproveita período ocioso da terra
Ciclo curto: Libera área mais cedo para culturas de verão
Rotação de culturas: Quebra ciclo de pragas e doenças
Cobertura de solo: Palhada de excelente qualidade
Rusticidade: Mais tolerante à seca que o trigo
Demanda de Mercado
O Brasil consome cerca de 2 milhões de toneladas de malte por ano, mas produz apenas 40-50% dessa demanda. O restante é importado da Argentina e Uruguai, criando uma enorme oportunidade para produtores brasileiros.
📍 Regiões Aptas ao Cultivo
Região Sul (Principal Produtora)
Paraná
Responsável por 60% da produção nacional
Principais regiões: Campos Gerais (Ponta Grossa, Guarapuava, Castro)
Produtividade média: 4.200 kg/ha
Rio Grande do Sul
Segunda maior produção
Área em retração devido a riscos climáticos
Produtividade média: 3.400 kg/ha
Santa Catarina
Menor produtor da região Sul
Produtividade: 3.600 kg/ha
Região Central (Em Expansão)
Minas Gerais
Triângulo Mineiro (áreas de altitude acima de 800m)
Cultivo sob irrigação
Potencial: 5.000-6.500 kg/ha
Goiás e Distrito Federal
Áreas de Cerrado com altitude adequada
Produção ainda incipiente
Grande potencial de expansão
São Paulo
Regiões serranas
Produção localizada
🌡️ Clima e Solo Ideais
Necessidades Climáticas
Temperatura
Ideal: 15-20°C durante o ciclo
Germinação: 10-20°C
Floração: 15-18°C (fase crítica!)
Tolerância ao frio: Até -6°C (plantas adultas)
Sensibilidade ao calor: Acima de 30°C reduz qualidade
Precipitação
Ideal: 350-500 mm durante o ciclo
Distribuição uniforme é mais importante que volume total
Evitar chuvas excessivas na colheita (prejudica germinação)
Horas de Frio
Necessário: 150-300 horas abaixo de 10°C
Quebra dormência e induz floração adequada
Características do Solo
Tipo de Solo Ideal
Franco-arenoso a franco-argiloso
Bem drenado (cevada não tolera alagamento!)
Profundidade: mínimo 40 cm, ideal 80-100 cm
pH
Ideal: 5,5-6,5
Cevada é sensível à acidez (mais que trigo)
Fazer calagem 60-90 dias antes do plantio
Fertilidade
Nitrogênio (N): Moderado (80-120 kg/ha)
Fósforo (P₂O₅): 50-80 kg/ha
Potássio (K₂O): 40-60 kg/ha
🌱 Principais Cultivares no Brasil
Cultivares da Embrapa (90% da Área)
BRS Cauê
Ciclo: Precoce (100-110 dias)
Porte: Anão (70-80 cm) – resistente ao acamamento
Produtividade: 4.000-5.500 kg/ha
Qualidade: Excelente para malte
Resistência: Oídio e ferrugem
BRS Brau
Ciclo: Médio (110-120 dias)
Porte: Semi-anão (75-85 cm)
Produtividade: 4.200-5.800 kg/ha
Qualidade: Premium para malte
Indicação: Região Sul
BRS Elis
Ciclo: Médio-tardio (115-125 dias)
Porte: Médio (80-90 cm)
Produtividade: 3.800-5.200 kg/ha
Destaque: Tolerância a doenças
BRS Savana
Ciclo: Precoce (95-105 dias)
Desenvolvimento: Para Cerrado sob irrigação
Produtividade: 5.000-6.500 kg/ha
Diferencial: Adaptada a temperaturas mais altas
Cultivares Internacionais (Uso Restrito)
Scarlett
Origem: Alemanha
Alta qualidade cervejeira
Exigente em manejo
Metcalfe
Origem: Canadá
Ótima para malte
Menor adaptação ao Brasil
📅 Época de Plantio
Região Sul
Paraná: Maio a início de julho
Janela ideal: 20 de maio a 20 de junho
Evitar plantios muito tardios (risco de geada na floração)
Rio Grande do Sul: Junho a julho
Sul do estado: junho
Norte do estado: final de junho a julho
Santa Catarina: Junho a julho
Região Central (Irrigado)
Minas Gerais/Goiás: Maio a junho
Aproveitar temperaturas amenas do inverno
Irrigação complementar necessária
🚜 Passo a Passo do Cultivo
1. Preparo do Solo
Sistema Plantio Direto (Recomendado)
Manter palhada da cultura anterior
Apenas dessecação de plantas daninhas
Economia de combustível e mão de obra
Sistema Convencional
Aração: 20-30 cm de profundidade
Gradagem niveladora
Deixar solo destorroado e firme
Correção e Adubação de Base
Aplicar calcário 60-90 dias antes (se necessário)
Na semeadura: P e K conforme análise de solo
Exemplo: 250-350 kg/ha de NPK 05-25-25
2. Semeadura
Densidade
Objetivo: 250-300 plantas/m² (2,5-3 milhões/ha)
Taxa de semeadura: 80-120 kg/ha de sementes (depende da germinação)
Espaçamento
Convencional: 17-20 cm entre linhas
Alternativo: Até 30 cm para variedades com alto perfilhamento
Profundidade
Ideal: 3-5 cm
Sementes muito rasas: desidratação
Sementes muito profundas: emergência desigual
Qualidade da Semente
Usar sementes certificadas
Germinação mínima: 85%
Tratamento de sementes com fungicida
3. Adubação de Cobertura
Nitrogênio (N)
Dose total: 80-120 kg/ha de N
Parcelamento:
1ª cobertura: 30-40 dias após emergência (início do perfilhamento) – 40-60 kg/ha de N
2ª cobertura (opcional): Alongamento (50-60 dias) – 20-40 kg/ha de N
Fontes: Ureia (45% N) ou Sulfato de Amônio (21% N)
Atenção: Excesso de nitrogênio aumenta proteína do grão (ruim para malte!) e favorece acamamento
Micronutrientes
Boro (B): 0,5-1 kg/ha (via foliar ou solo)
Manganês (Mn): 200-400 g/ha (se deficiente)
4. Controle de Plantas Daninhas
Pré-emergência
Herbicidas: Diuron, Pendimetalina
Aplicar logo após plantio
Pós-emergência
Folhas largas: 2,4-D, Metsulfuron
Gramíneas: Clodinafope, Fenoxaprope
Época crítica: Primeiros 40 dias
Importante: Seguir receituário agronômico e período de carência
Malte é a cevada germinada artificialmente e depois seca. Durante a germinação, enzimas são ativadas e transformam o amido em açúcares fermentáveis — essenciais para produzir cerveja e whisky.
Etapas da Malteação
1. Maceração (2-3 dias)
Grãos são imersos em água a 10-13°C
Umidade sobe de 12% para 45-46%
Quebra dormência e inicia germinação
2. Germinação (4-6 dias)
Grãos são espalhados em salas climatizadas
Temperatura: 14-20°C
Radículas (raízes) começam a crescer
Enzimas (amilase) são ativadas
Amido é parcialmente decomposto
3. Secagem/Kilning (1-2 dias)
Interrompe germinação com calor
Temperatura: 50-85°C (define tipo de malte)
Maltes claros: 50-65°C
Maltes escuros: 80-105°C
Umidade final: 4-5%
4. Crivagem
Remoção das radículas
Polimento do grão
Tipos de Malte Produzidos
Malte Pilsen: Base da maioria das cervejas (claro)
Potencial: 500 mil hectares (para autossuficiência)
Distribuição por Estado
Paraná: ~60% (85 mil ha)
Rio Grande do Sul: ~30% (42 mil ha)
Santa Catarina: ~8% (11 mil ha)
Outros: ~2%
Importação x Produção
Demanda brasileira de malte: 2 milhões ton/ano
Produção nacional de malte: ~900 mil ton/ano (45%)
Importação: 55% (Argentina, Uruguai, Europa)
Potencial de crescimento: Enorme!
💡 Viabilidade Econômica
Custos de Produção (por hectare)
Insumos
Sementes: R$ 400-600
Fertilizantes: R$ 800-1.200
Defensivos: R$ 600-900
Total insumos: R$ 1.800-2.700
Operações
Preparo do solo: R$ 200-350
Semeadura: R$ 150-250
Pulverizações: R$ 200-350
Colheita: R$ 400-600
Total operações: R$ 950-1.550
Total: R$ 2.750-4.250/ha
Receita Potencial
Cenário Conservador
Produtividade: 3.500 kg/ha
Preço: R$ 750/ton (classe 1)
Receita bruta: R$ 2.625/ha
Margem: Negativa (alto risco)
Cenário Moderado
Produtividade: 4.500 kg/ha
Preço: R$ 800/ton (classe 1)
Receita bruta: R$ 3.600/ha
Margem: R$ 850-1.200/ha
Cenário Otimista
Produtividade: 5.500 kg/ha
Preço: R$ 850/ton (classe 1 + bônus)
Receita bruta: R$ 4.675/ha
Margem: R$ 2.000-2.500/ha
Comparação com Trigo
Cevada tem custo 10-20% maior
Mas produtividade 10-15% superior
E preço 5-15% melhor
Resultado: Rentabilidade similar ou superior
Análise de Risco
Riscos
Clima (geada, chuva na colheita)
Não atingir padrão cervejeiro (vira ração)
Preço baixo (se qualidade ruim)
Oportunidades
Mercado garantido (contratos)
Demanda crescente
Menos produtores que trigo (menor competição)
Assistência técnica das maltarias
✅ Checklist do Produtor de Cevada
Antes de Plantar
☐ Analisei o solo e corrigi pH
☐ Firmei contrato com cooperativa/maltaria
☐ Escolhi cultivar adaptada à região
☐ Garanti sementes certificadas
☐ Verifiquei zoneamento agroclimático
Durante o Cultivo
☐ Plantio na época recomendada
☐ Densidade e espaçamento corretos
☐ Adubação de cobertura no momento certo
☐ Controle preventivo de doenças (oídio, manchas)
☐ Monitoramento de pragas (pulgões)
Na Colheita
☐ Colhi com umidade ideal (13-14%)
☐ Regulei colheitadeira para não quebrar grãos
☐ Sequei/armazenei imediatamente
☐ Mantive germinação alta (>95%)
Na Comercialização
☐ Entreguei produto dentro do padrão
☐ Recebi pagamento por qualidade (classe 1)
☐ Avaliei resultados para próxima safra
🌾 Outros Usos da Cevada
Alimentação Humana
Farinha de cevada: Pães, biscoitos, sopas
Grãos integrais: Saladas, risotos
Chá de cevada: Popular na Ásia (mugicha)
Café de cevada: Bebida sem cafeína
Benefícios nutricionais:
Rica em fibras (beta-glucanos)
Reduz colesterol
Controla glicemia
Vitaminas do complexo B
Alimentação Animal
Ração para suínos, aves, bovinos
Forragem verde (pastejo ou corte)
Silagem (planta inteira)
Feno de cevada
Cevada fora do padrão cervejeiro é 100% aproveitada na nutrição animal.
Outras Aplicações
Whisky: Malte para destilarias (Escócia, Irlanda, Japão)
Vinagre de malte: Condimento
Extrato de malte: Indústria alimentícia
🎯 Conclusão
A cevada representa uma excelente oportunidade para produtores rurais brasileiros que buscam diversificar culturas de inverno e aumentar rentabilidade. Com o mercado interno demandando o dobro do que é produzido, a perspectiva é de crescimento constante nos próximos anos.
O cultivo exige cuidados técnicos específicos — especialmente para atingir o padrão cervejeiro — mas oferece segurança de comercialização através de contratos antecipados e assistência técnica das maltarias.
Para ter sucesso com cevada, o produtor deve:
Escolher cultivares adaptadas
Plantar na época correta
Manejar adequadamente pragas e doenças
Colher no ponto ideal (preservar germinação)
Buscar sempre a classe 1 (máxima rentabilidade)
Com planejamento e técnica, a cevada pode se tornar um componente estratégico e lucrativo no sistema produtivo da sua propriedade!